| Texto da nota |
Oh leitor do Ó!<br/>Utilizando com grande finura o distanciamento brechtiano, Domingos Lobo dá-se à abordagem, neste romance, de um país que, sob Salazar, vive as suas próprias contradições (ideológicas, sentimentais, morais). Um tema fácil? Não. Na pena de Domingos Lobo, e por mais paradoxal que tal possa parecer, essas contradições constituem um pano de fundo em que todos se misturam, se respiram mutuamente - resistentes, indiferentes, serventuários do regime…<br/>Trata-se de uma atmosfera natural para quem a respira, como se as coisas desde o princípio do mundo tivessem sido sempre assim – e unicamente o leitor, beneficiando já de uma outra perspectiva, é que sabe destrinçar entre uns e outros, entre o claro e o escuro, e, assim, situar-se, embora um anto confuso, no eventual caminho justo da vida.<br/>Aliás, uma figura há neste romance, Antunes do Ó, autêntica obra-prima no âmbito da obra-prima no âmbito da criação literária (talvez a maior personagem da nossa actual literatura), que nos dá precisamente essa confusão: um dos cães de fila do regime, Antunes do Ó, age e repensa os métodos, questiona-se sobre os modos de agir e sobre o regime que serve. Numa palavra: interpreta e desmonta a personagem, levando-a a subverter o estado das coisas. Logo: o apelido Ó transforma-se no “AH!”, já não confuso, do leitor. Ora tais transformações só um grande escritor as sabe operar.. |